RESENHA | TODA LUZ QUE NÃO PODEMOS VER
- Flávia
- 12 de mar.
- 4 min de leitura
Título: Toda luz que não podemos ver
Autor: Anthony Doerr
Gênero: Ficção histórica
Ano: 2015
Páginas: 635
Editora: Intrínseca
Classificação Indicativa: +16
Minha Nota: 4,5 ★
Sinopse: Marie-Laure vive em Paris, perto do Museu de História Natural, onde seu pai é o chaveiro responsável por cuidar de milhares de fechaduras. Quando a menina fica cega, aos seis anos, o pai constrói uma maquete em miniatura do bairro onde moram para que ela seja capaz de memorizar os caminhos. Na ocupação nazista em Paris, pai e filha fogem para a cidade de Saint-Malo e levam consigo o que talvez seja o mais valioso tesouro do museu.
Em uma região de minas na Alemanha, o órfão Werner cresce com a irmã mais nova, encantado pelo rádio que certo dia encontram em uma pilha de lixo. Com a prática, acaba se tornando especialista no aparelho, talento que lhe vale uma vaga em uma escola nazista e, logo depois, uma missão especial: descobrir a fonte das transmissões de rádio responsáveis pela chegada dos Aliados na Normandia. Cada vez mais consciente dos custos humanos de seu trabalho, o rapaz é enviado então para Saint-Malo, onde seu caminho cruza o de Marie-Laure, enquanto ambos tentam sobreviver à Segunda Guerra Mundial.
Um tocante romance sobre o que há além do mundo visível.

Abra os olhos e veja o que puder com eles antes que se fechem para sempre.
Toda luz que não podemos ver é um livro de ficção histórica ambientado na Segunda Guerra Mundial. A obra ganhou o prêmio Pulitzer de melhor ficção no ano de 2015.
Na história, acompanhamos a trajetória de dois personagens: Marie-Laure e Werner, uma menina francesa e um garoto alemão que em tudo, no cenário e contexto da Guerra, são opostos.
Marie-Laure é uma garota que, aos seis anos de idade, perde a visão por conta de uma doença ocular. Marie-laure vive com o pai em Paris, onde ele é o chaveiro do Museu de História Natural. Apesar da doença, a garota tem uma infância feliz ao lado de seu pai, comemorando aniversários com presentes especiais e descobrindo o mundo através dos livros de Júlio Verne. Até que tudo isso muda quando a Alemanha invade a França e Marie-Laure e o pai saem de Paris, com muito mais do que suas roupas em suas bagagens, em busca de abrigo na cidade litorânea de Saint-Malo.
Werner é um órfão alemão que vive com sua irmã, Jutta, em um abrigo na cidade de... Apesar de conformado com a situação de que, quando crescer, trabalhará nas minas da região, Werner não consegue conter sua sede por conhecimento, física e ciência. O destino de Werner, porém, começará a ser escrito quando o garoto encontra, em meio a sucata e ao lixo, um velho rádio quebrado. Werner então descobre uma grande paixão: a mecânica dos rádios e aquilo que eles sintonizam. Com o estopim da Guerra, Werner, por seus talentos com o rádio, é enviado a uma escola militar nazista e, após, à Guerra, em uma unidade que tem como missão encontrar e exterminar transmissões clandestinas.
Toda luz que não podemos ver não é um livro comum com a temática de Segunda Guerra Mundial. Não é um livro que possui ritmo acelerado por tratar de assuntos como as batalhas, bombardeios e a guerra em geral. Inclusive, a Guerra em si, a visitamos muito brevemente. A narrativa prefere focar naquilo que não vemos e percebemos durante a Guerra: a rotina daqueles que buscam apenas sobreviver ao próximo dia, apesar das dificuldades.
Acredito que, quando pensamos em Guerras Mundiais, pensamos majoritariamente nos campos de batalhas, nos aviões bombardeiros, nos fortes construídos, no sangue derramado e nas vidas perdidas. Pouco pensamos, em profundidade, nas pessoas que passaram pelos horrores inenarráveis de uma Guerra e sobreviveram. Nas pessoas que tiveram suas vidas, casas e rotinas completamente transformadas do dia para a noite e tiveram que se reconstruir em outros lugares, de outros modos, e mesmo assim continuaram a tentar viver. Nas pessoas que, assim que vestiram um uniforme, perceberam que suas vidas não lhes pertenciam mais.
E é disso que se trata esse livro, é sobre essas pessoas. É sobre a vida conhecida e perdida, é sobre potenciais pessoais impossibilitados de serem explorados graças à chegada da Guerra, é sobre a distância. Sobre crescer. Sobre ter medo. Sobre resistir e sobre existir.
O livro, apesar de ter capítulos curtos, que geralmente aceleram a leitura tornando-a mais fácil e dinâmica, tem um ritmo lento e vagaroso. Para alguns pode ser que isso incomode, mas eu acredito que tenha sido exatamente essa a intenção do autor e que ele executou com maestria.
A história se inicia durante um bombardeio Aliado à cidade de Saint-Malo. Na ocasião, achamos que o livro será uma história contada a partir desse bombardeio e de seus desdobramentos, mas, então, a história retrocede e podemos acompanhar a infância e adolescência dos personagens principais e como foi crescer na iminência da Guerra e durante essa.
Apesar de o livro focar principalmente na trajetória de Marie-Laure e Werne, os personagens secundários não deixaram nada a desejar. Mesmo que de breves aparições, todos deixaram marcas na história, nos personagens principais e em nós, leitores. Achei incrível a facilidade do autor de dar profundidade a personagens que tinham tão pouco tempo de “cena”.
A escrita do autor é incrivelmente sensível e poética. Eu adorava ler sobre as descrições dos lugares, dos cheiros e dos sons, principalmente nas passagens de Marie-Laure, que é cega. Por diversos momentos me vi lendo e pensando que a obra seria facilmente adaptável a um roteiro de série ou filme. Afinal, enquanto eu lia já sentia que estava assistindo ao livro, e não lendo.
Recomento fortemente, será um livro que lembrarei por muito e muito tempo...
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